Os passos de INRI até o jejum da revelação – um relato autobiográfico de INRI CRISTO

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Muitas pessoas se questionam: quando, onde e como INRI descobriu ser Cristo reencarnado? Durante o jejum em Santiago do Chile, em setembro de 1979, INRI teve a revelação de seu PAI, SENHOR e DEUS de que ele é o mesmo Cristo crucificado há dois mil anos. Todavia, existem inúmeros detalhes fascinantes que INRI vivenciou até chegar a essa descoberta, e é mister trazê-los à tona. Pois são esses detalhes que levarão os seres pensantes a se questionar: “E se for?”

Nós, discípulos(as) de INRI CRISTO, que temos consciência, convicção de sua identidade, nos sentimos impelidos a registrar as inúmeras curvas de sua trajetória, propiciando a cada ser humano fazer uma reflexão profunda e chegar às suas próprias conclusões. Antes, porém, de apresentarmos o relato de INRI CRISTO quando de sua chegada ao Chile em 1979 e as experiências que ele passou até chegar ao jejum, expomos o resumo de sua história até a revelação.

1-Desde a infância, INRI CRISTO obedece à poderosa voz que lhe fala no interior da cabeça, mas que até o jejum não sabia de quem era. Aos treze anos, recebeu ordem de sair de casa, abdicar o aconchego do lar. Passou a peregrinar sobre a Terra e a vivenciar a realidade das esquinas sociais. Na adolescência, trabalhou como verdureiro, padeiro, entregador de alimentos, mascate, garçom etc. Teve a oportunidade de testemunhar algumas das falcatruas praticadas pela proscrita igreja romana, dentre as quais usar o nome dos pobres e necessitados no intuito de angariar recursos ilícitos em benefício próprio. Desvendou, ainda jovem, a face oculta dos que se dizem servos de DEUS e se apresentam ao povo como paladinos das causas justas, todavia interiormente são repletos de falsidade, corrupção, hipocrisia e iniquidade. Isso lhe fez desacreditar completamente das religiões e a tornar-se um convicto ateu até o jejum. INRI CRISTO nunca pôde se apegar a nada nem a ninguém. Quando lhe agradava trabalhar num lugar ou conviver com uma pessoa, recebia ordem para mudar de profissão, mudar de cidade, sempre adiante em obediência à imperiosa voz que o comanda.

2-Em 1969, aos 21 anos, INRI CRISTO passou a viver como profeta, pois desde a infância seu PAI lhe concedera o dom da vidência. Era profeta de um DEUS desconhecido (“Prepara-te para receber-me… virei a ti como um ladrão e não saberás a que hora virei a ti” – Apocalipse c.3 v.3). Sem ter ainda consciência de sua identidade, todavia sempre em obediência à voz que lhe fala no interior da cabeça desde a infância, iniciou sua vida pública como Iuri e falava nas rádios anunciando o porvir. A partir de 1971, na TV Morena, canal 6 de Campo Grande – MS, falava nos programas de televisão. Nessa circunstância, sua vida deu um salto; de cidade em cidade, começou a viver em hotéis e a frequentar todos os ambientes sociais. Antes de sair do Brasil, habitava a suíte 951 do hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro.

3-O dom da profecia e sua predestinação em conhecer as sinuosidades da alma humana fizeram com que fosse conhecido e procurado por muitos. Deputados, senadores, juízes, desembargadores, empresários, socialites vinham à sua presença em busca de conselhos e orientações, perguntando-lhe sobre o porvir. Ele indicava a solução de seus problemas, dava-lhes instrução e eles contribuíam com a sua sobrevivência e caminhada sobre a Terra. E assim INRI CRISTO vivenciou de perto os problemas do mais baixo ao mais alto padrão de vida. Através desse imenso laboratório de sociologia, seu PAI, SENHOR e DEUS lhe facultou conhecer profundamente as verdadeiras intenções ocultas no interior de cada ser humano, suas fraquezas e misérias, as enfermidades disfarçadas em tecidos caros, a hipocrisia e a corrupção da sociedade contemporânea… Enfim, o minucioso estudo na escola da vida lhe rendeu o conhecimento empírico de ciências humanas, que não se aprende nos livros nem nas academias convencionais, necessário para o cumprimento de sua missão.

4-Em 1978 recebeu a ordem de sair do Brasil despojando-se completamente dos bens materiais. Sentia em seu interior que estava prestes a fazer uma viagem sem volta. Em 01/09/1978 chegou a Santa Cruz de La Sierra e no dia seguinte a La Paz, na Bolívia. Após haver passado pela Bolívia, Paraguai (incluindo a prisão política de Strossner em Asunción), Uruguai e Argentina, finalmente INRI CRISTO chegou ao Chile, ainda na condição de profeta. Em Santiago já havia um grupo de esoteristas independentes que, movidos pela Divina Providência, se preparavam para receber “el gran Maestro”. Eles haviam construído uma rústica casa de pedra, local onde INRI iria jejuar.

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Foto da casa de pedra registrada pela primeira discípula de INRI CRISTO, Abeverê, em setembro de 1982

5-Agora iniciaremos o relato detalhado de INRI de alguns eventos que precederam sua passagem por Santiago do Chile, a começar pelo episódio da vidente de Buenos Aires, registrado no livro DESPERTADOR 1ª parte, o desdobrar dos acontecimentos e por fim a chocante revelação no jejum. Uma história cujo desfecho surpreendente é apenas o início de uma longa trajetória a seguir, rumo ao cumprimento de sua missão.

Assim falou INRI CRISTO:

6-“…Em Buenos Aires, após reunir-me com os jornalistas no Hotel De Las Americas, passei a receber em audiência as pessoas que me procuravam em busca de orientação metafísica. Dentre as que compareceram, surgiu uma mulher sexagenária, pedindo uma solução para o problema de sua filha, cuja vida conjugal era um inferno, alegando que era insuportável conviver com o genro. Ela obteve a instrução, levantou-se da cadeira, despediu-se e, fazendo menção de retirar-se, deu uma última olhada, demonstrando querer perguntar algo mais. Então disse:

7-“Maestro, ¿puedo hablarte algo?” (“Mestre, posso falar algo?”) – obtendo consentimento, prosseguiu:

“Yo también soy vidente” (“Eu também sou vidente”).

“¿Si eres vidente, por qué no vistes, no encontrastes una solución para la vida conyugal de tu hija?” (“Se és vidente, por que não viste, não achaste uma solução para a vida conjugal de tua filha?”)

“Yo veo el futuro de las personas, vivo de esto. Aconsejo, oriento y resuelvo con la inspiración divina sus problemas; solamente no puedo resolver mis problemas. Pero, si me permites, tengo algo a te decir sobre tu futuro, y para que creas en mi visión, te describiré un poco de tu pasado.”(“Eu vejo o futuro das pessoas, disto vivo. Aconselho, oriento e resolvo com a inspiração divina seus problemas; só não posso resolver os meus problemas. Porém, se me permites, tenho algo a te dizer sobre o teu futuro, e para que creias na minha visão, te descreverei um pouco do teu passado”).

8-E ela começou a falar sobre os principais acontecimentos de minha vida… Discorreu desde as dificuldades da infância e adolescência até os fatos mais recentes, a longa caminhada sobre a terra, lembrando-me das detenções, perseguições e conspirações de violência, a exemplo do massacre de Ponta Grossa; descreveu o período carcerário na prisão política de Assunção com detalhes minuciosos, com clareza, como se fosse testemunha ocular. Então começou a falar do meu futuro, dizendo:

“Tu serás muy odiado, perseguido y calumniado; serás detenido, aprisionado, injuriado y serás expulso de algunos países; aún serás sometido a toda suerte de conspiración y reprobación.” (“Tu serás muito odiado, perseguido e caluniado; serás detido, aprisionado, injuriado e serás expulso de alguns países; ainda serás submetido a toda sorte de conspiração e reprovação”).

Deteve-se por uns instantes, com um olhar meditativo, brilhante, e enfim concluiu:

“Pero después serás reconocido por toda la humanidad…” (“Mas depois, serás reconhecido por toda a humanidade…”)

9-Aquela mensagem me deixou atônito, mas então compreendi por que tinha que permanecer naquela cidade.

De Buenos Aires partimos pra Mendonza, eu e o secretário brasileiro Antônio Marques de Oliveira. De Mendonza fretamos um veículo com mais três pessoas com destino a Santiago. O dinheiro estava contado para ir direto, todavia, passando por Los Andes, recebi ordem de parar lá. Fomos direto ao Hotel Plaza. Lá chegando, aconteceu tudo muito rápido… Embora estivéssemos sem dinheiro, o hotel não sabia e nos hospedou como de praxe. Indaguei a gerente, Nina, se havia emissora de rádio local. Ela respondeu que eu deveria ir direto ao jornal de Los Andes, pois o dono do jornal era também o dono da rádio. Era perto de meio-dia e fomos direto pra lá, eu e o secretário, onde estava tudo encaminhado pela Divina Providência.

10-Logo ao chegar, o diretor do jornal fez um convite, como se já estivesse à espera:

“Habrá un encuentro para la inauguración de un hotel en la Cordillera de los Andes, breve pasará acá un autobús con periodistas de Santiago, pero yo no puedo ir. ¿Tu aceptas representar el periódico de Los Andes en mi lugar?” (“Haverá um encontro para a inauguração de um hotel na Cordilheira dos Andes, em breve passará aqui um ônibus com jornalistas de Santiago, mas eu não posso ir. Tu aceitas representar o jornal de Los Andes no meu lugar?”)

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Esse é o hotel mencionado por INRI CRISTO, situado na divisa entre Chile e Argentina, hoje desativado

11-Como eu carecia estreitar uma relação com ele até para que publicasse minha presença na cidade a fim de angariar meios de sobreviver, aceitei prontamente; tudo por conta da ordem do SENHOR de parar em Los Andes. O diretor acrescentou:

“Entonces, espera allá en el hotel; cuando los periodistas pasen acá, les digo que me estarás representando, y ellos van allá te buscar.” (“Então espera lá no hotel; quando os jornalistas passarem aqui, digo-lhes que estarás me representando, e eles vão lá te buscar”).

Menos de uma hora depois, mal desarrumara as malas, o porteiro chamou. Os jornalistas de Santiago aguardavam na entrada do Hotel Plaza, a bordo de um ônibus de luxo alemão, de primeira categoria. Só então compreendi por que o dono do jornal me fez aquela proposta… Como ele era visto como cidadão do interior, não se sentia bem no meio daqueles jornalistas orgulhosos, vindos da capital… Então ele colocou lá um furacão para atrapalhar a todos e fazer uma espécie de vingança intelectual velada. Era uma forma de dar a volta por cima, enviando um estrangeiro para representar um jornal do Chile. Os murmúrios foram inevitáveis:

“Solo mismo acá en Chile para colocar un extranjero a representar un periódico chileno. ¡Eso es un absurdo!” (“Só mesmo aqui no Chile pra colocar um estrangeiro a representar um jornal chileno. Isso é um absurdo!”)

12-Esse hotel se situa bem no alto das Cordilheiras; em 2010 estive nesse lugar acompanhado de meus discípulos. Lá chegando, ao início das cerimônias, para surpresa dos grã-finos presentes, subi numa mesa e comecei a falar, iniciando por um sermão sobre o porvir. Chegou um momento em que o dono do hotel interveio: “¿Podemos empezar la inauguración?” (“Podemos começar a inauguração?”), abrindo espaço para entrevistas, afinal era pra isso que os jornalistas estavam lá.

13-Houve um fotógrafo que tirou muitas fotos enquanto eu falava. Posteriormente, ele me conduziu diante de uma escultura com uma cruz, perguntando o que eu achava daquilo. Respondi apenas:

“Soy profeta enviado del Cosmos para hablar sobre el porvenir…” (“Sou profeta enviado do Cosmos para falar sobre o porvir…”), e desconversei.

Mas ele insistiu:

“Voy a escribir un artículo para mi periódico haciendo una comparación entre usted y esta imagen.” (“Vou escrever uma matéria pro meu jornal fazendo uma comparação entre você e essa imagem”).

E assim publicaram sobre a presença do “profeta brasileño” na primeira página no jornal La Tercera, o mais lido de Santiago, levando minha imagem à capital chilena antes de eu chegar lá.

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Pesquisando na internet sobre o hotel situado na divisa entre Chile e Argentina, na Cordilheira dos Andes, casualmente encontramos esse monumento, chamado El Cristo Redentor de Los Andes, do escultor argentino Mateo Alonso, inaugurado em 1904. Quando mostramos a INRI CRISTO, ele confirmou que era justamente essa a imagem sobre a qual o fotógrafo chileno o havia indagado.

14-Enquanto permaneci em Los Andes, era difícil alguém me procurar, pois não tive acesso à rádio para divulgar minha presença na cidade. Dentre as pessoas que me abordavam, algumas diziam assim:

“Usted tiene que ir a Santiago hablar con Patricio Varela.” (“Você tem que ir a Santiago falar com Patrício Varela”).

Houve um grupo de curiosos que me convidaram para um encontro e ao término novamente disseram:

“Usted tiene que hablar con Patricio Varela.” (“Você tem que falar com Patrício Varela”). O nome Patrício Varela era constantemente repetido nas minhas orelhas.

Ao mesmo tempo, a voz interior dizia:

“Preste atenção nas mulheres, elas te levarão ao jejum…” Essa mensagem ficou repercutindo na minha cabeça, uma vez que, antes de sair do Brasil, recebi ordem da poderosa voz interior de que tinha que jejuar.

15-Mas antes de partir para Santiago, o assessor que me acompanhava, possuído por um espírito das trevas, foi à polícia me denunciar. Antônio Marques de Oliveira era um mercenário, um profissional, assessorava-me com a garantia de receber dez por cento do que eu arrecadasse nas consultas aos que me procuravam. Ele tinha a ambição de morar nos Estados Unidos. Como eu havia recebido ordem de percorrer toda a América Latina, o que incluía a América Central, ele viu nisso uma boa oportunidade para alcançar seus objetivos.

Viemos de Mendonza sem recursos e em Los Andes quase ninguém veio me procurar, levando-o a concluir que não ia entrar dinheiro… Até que um dia, Antônio inadvertidamente chegou à minha presença acompanhado de dois policiais, na tentativa de me deter sob acusações infundadas – uma delas era de que eu estaria extorquindo recursos da mulher de um banqueiro em Buenos Aires, entre outras. Eu imediatamente indaguei-o em frente dos policiais:

16-“¿Entonces, donde está la plata, si es la denuncia que me hacen? Yo tengo vida pública. Él es mi asesor, recibe las personas que vienen a mi encuentro, en los hoteles donde me hospedo. Vivo como profeta, aconsejo las personas que necesitan de ayuda, y obviamente ellas necesitan resarcir la ayuda recibida. Pero ha sucedido que ahora estoy sin recursos. Él fue me denunciar solo porque no tengo plata para pagarle. ¿Cómo se queda ahora?”(“Então onde está o dinheiro, se é essa a denúncia que me fazem? Eu tenho vida pública. Ele é meu assessor, recepciona as pessoas que vêm ao meu encontro, nos hotéis onde me hospedo. Vivo como profeta, aconselho as pessoas que precisam de ajuda, e obviamente elas necessitam ressarcir os préstimos recebidos. Todavia aconteceu que agora estou sem recursos. Ele foi me denunciar só porque não tenho dinheiro pra lhe pagar. Como é que fica?”)

O policial confirmou que esse era o motivo, logo entendeu o que estava acontecendo e disse:

“Ustedes que son brasileños, traten de resolver ese asunto allá en Brasil. La Policía de Chile no tiene nada que ver con esto.” (“Vocês são brasileiros, tratem de resolver esse assunto lá no Brasil. A polícia do Chile não tem nada a ver com isso”).

Olhei na direção de Antônio Marques e desabafei na frente dos policiais:

“A partir de agora você já não pode mais entrar naquele alojamento”.

E ainda disse ao porteiro:

17-“Usted recoge las bagajes de él, lleva para otro lugar, porqué a partir de ahora él ya no es más mi auxiliar, ya no tiene más nada conmigo después de tener ido a la Policía hacer una denuncia tan absurda.” (“Você recolhe as bagagens dele, leva pra outro lugar, porque a partir de agora ele já não é mais meu auxiliar, já não tem mais nada a ver comigo depois de ter ido à Polícia fazer uma denúncia tão absurda”).

Antônio recolheu as malas e foi embora. Era uma conta de hotel a menos para pagar, já que eu estava sem dinheiro. Enquanto ele saía, o porteiro olhou em minha direção e verbalizou uma frase milenar:

“No hay profeta sin honra, sino en su patria.” (Não há profeta sem honra a não ser em sua pátria).

Naquele momento percebi que era necessária a separação, mas havia algo em meu interior dizendo que em Santiago tudo seria resolvido. Depois do jejum o SENHOR me facultou compreender que aquele assessor era um pedaço da terra do Brasil, e por isso não podia estar em minha companhia enquanto eu fosse jejuar. Até mesmo o fato de o Chile ser o primeiro país que eu visitava sem fronteira com o Brasil foi providencial. Tudo isso foi preparando o meu espírito para o jejum.

18-Já fazia quinze dias que eu chegara em Los Andes e estava encurralado, sem alternativa para pagar a despesa da hospedagem; não pude falar na rádio, consequentemente ninguém vinha ao meu encontro e a dívida no hotel só aumentava. A gerente, chamada Nina, com quem eu tinha feito amizade, testemunhou o ocorrido e ficou solidária com a minha situação. Expliquei a ela que precisava ir a Santiago, todavia estava sem recursos para ressarcir as despesas. Naquele tempo, eu carregava comigo dois dossiês, com reportagens de jornais e revistas do Brasil, expondo minha condição de profeta. Propus a Nina que ficasse com um dossiê como garantia caso o dono do hotel lhe indagasse, e assim que conseguisse recursos em Santiago pagaria a dívida. Nina disse que se fosse dona do hotel, não haveria com o que me preocupar; ela me liberaria. Só aceitou ficar com o dossiê porque devia satisfação ao dono do hotel. Não bastando isso, ela ainda me proveu de recursos para adquirir a passagem de ônibus Los Andes – Santiago. Tudo resolvido, embarquei sozinho rumo à capital chilena. Carregava uma mala e andava trajado de conjunto safári branco.

19-No ônibus rumo a Santiago, o indivíduo que sentou ao meu lado me abordou e começou a me questionar. Foi aí que indaguei quais os hotéis em Santiago eram mais adequados para se hospedar. Ele respondeu:

“El hotel donde se quedan los jugadores de futbol brasileños es el Hotel Imperador.” (“O hotel onde ficam os jogadores de futebol brasileiros é o hotel Imperador”).

“¿Tú sabes dónde se queda? ¿Me podrías mostrar?” (“Você sabe onde fica? Poderia me mostrar?”)

“!Por supuesto!” (“É claro”).

Durante o trajeto, de aproximadamente 100 km, fizemos amizade, expliquei a ele minha condição, como vivia… Chegando à rodoviária, ele pegou a minha mala, colocou dentro do táxi levou-me até o Hotel Imperador (hoje se chama Hotel Libertador), situado na galeria Del Rey, no centro de Santiago. Ainda fez questão de me acompanhar até o alojamento e só se despediu quando viu que estava tudo arrumado, sem pedir um centavo. Ainda voltou lá uma vez mais para saber se estava tudo bem comigo. Este homem estava inspirado pelo SENHOR. Só o porteiro do hotel não me deu boas-vindas; mesmo sem um motivo aparente, recebeu-me com antipatia.

20-Quando cheguei a Santiago do Chile jamais imaginava o que iria acontecer. A bem da verdade, quando cheguei naquela cidade, foi tudo inesperado, porque as coisas do SENHOR são autênticas, não acontecem com hora marcada. Estava tudo preparado pela Divina Providência para que eu fosse jejuar. Havia um verdadeiro “comitê de recepção” à minha espera. Em meu foro íntimo intuía que estava na iminência de sofrer uma grande mudança em minha vida, só não sabia de que forma isso iria suceder… Fiquei aproximadamente dois meses em Santiago, e nesse ínterim aconteceram umas coisas muito esquisitas, uma série de coincidências incríveis que me prepararam para o jejum.

Tão logo me acomodei no hotel, a enfática insistência para procurar Patrício Varela aliada à necessidade de angariar recursos para a subsistência em Santiago repercutiam na minha cabeça. Naquele tempo, a televisão chilena era censurada pelo regime militar de Augusto Pinochet, então só me restou recorrer à rádio. Imediatamente comuniquei-me com o telefonista do hotel, era um cidadão mui prestativo de 67 anos.

21-“Yo soy un profeta brasileño, quiero la ubicación de Patricio Varela.” (“Sou um profeta brasileiro, quero a localização de Patricio Varela”).

“Si, si, Patrício Varela, por supuesto”. (“Sim, sim, Patricio Varela, é claro”).

Esse telefonista foi a primeira pessoa a amar minha presença e buscava estar sempre presente em minhas apresentações públicas. Imediatamente ele retornou a ligação indicando o endereço da Rádio Portales, a mais potente de Santiago. Fui até lá pessoalmente, todavia não me deixaram entrar. Como eu estava munido do segundo dossiê para mostrar ao Patrício, só me restou confiar que alguém levasse o documento até ele… Então coloquei o dossiê nas mãos do funcionário e disse com segurança:

“Tu vas hasta Patrício Varela, entregas esto en sus manos. Dile que si quiere hablar conmigo, estaré en el Hotel Imperador.” (“Tu vais lá no Patricio Varela, entrega isso em suas mãos. Diga-lhe que se quiser falar comigo, estarei no Hotel Imperador”).

Umas horas depois Patrício Varella me telefonou no hotel e já me colocou no ar, numa entrevista ao vivo. Fiz um acordo com o gerente do hotel e no dia seguinte já vieram muitas pessoas me procurar em busca de orientação espiritual. Dentre esses consulentes, apareceu uma mulher chamada Angelina del Rosário Garcia… ela passou a me assessorar no atendimento às pessoas até o último momento antes do jejum.

22-Com o passar do tempo, Patrício Varela tornou-se meu amigo. Ele me levava para conhecer os lugares em Santiago e convidou-me várias vezes a falar na Rádio Portales, onde conheci o neurocientista Dr. Taipo, que me convidou para uma mesa redonda com intelectuais na casa da irmã dele. Numa dessas reuniões, eu disse sentir que estava prestes a escalar um muro alto, numa subida sem volta, e não sabia o que havia do outro lado. Houve uma ocasião em que um dos participantes me indagou:

“¿Que haces con tu inquietud de hombre?” (Que fazes com tua inquietude de homem?)

E eu subitamente lhe respondi, nunca me esqueço desse momento:

“Mientras mi PADRE quiere, yo aún soy hombre.” (Enquanto meu PAI quiser, ainda sou homem).

Foram dois meses de ininterruptas audiências no Hotel Imperador. Estava juntando os recursos para o próximo destino, que seria Lima, no Peru. Nesse intervalo, mandei chamar a gerente do Hotel Plaza, Nina, para que viesse acertar a dívida pendente de Los Andes. Ela devolveu-me o dossiê que tinha em mãos e ficou felicíssima ao constatar que minha situação havia melhorado.

23-Entre uma consulta e outra, surgiram dois maçons que insistiram muito para que eu andasse de ônibus em Santiago junto com eles, pois queriam ver a reação do público ao deparar-se comigo. Um deles disse assim:

“Los curas no saben nada de las cosas místicas. Son unos repetidores de palabras, mas nada saben del más allá”. (“Os padres não sabem nada sobre as coisas místicas. São uns repetidores de palavras, mas não sabem nada sobre o além”).

Também apareceu uma mulher de uns 70 anos, chamada Filomena Delmont. Ela destacou-se dos demais já pela forma irreverente como se apresentou.

“Yo no quiero consultar cosa ninguna, yo quiero hablar con él”. (“Eu não quero consulta coisa nenhuma, quero falar com ele”).

Angelina del Rosário, incomodada por tão impertinente visitante, veio logo informar que havia uma senhora magrinha e muito atrevida me procurando:

“Hay una mujer muy malcriada allí fuera queriendo hablar contigo, pero no quiere esperar por los demás. ¿Qué debo hacer?” (“Tem uma mulher muito malcriada aí fora querendo falar contigo, mas não quer esperar pelos demais. O que faço?”)

24-A ousadia da mulher chamou minha atenção… lembrei da advertência para prestar atenção nas mulheres. Então respondi:

“Está bien. Dile que entre.” (“Está bem. Mande-a entrar”).

Filomena Delmont entrou, olhei na direção dela e ela disse:

“Maestro, no quiero consulta. Solamente quiero invitarte, yo y mis amigas, para una charla contigo en mi casa”. (“Mestre, não quero consulta. Somente quero te convidar, eu e minhas amigas, para uma conversa contigo em minha casa”).

“En el final del expediente tu vienes. Ahora tengo otras personas esperando para consultar”. (“No final do expediente tu vens. Agora tenho outras pessoas esperando para consultar”).

“Pues bien. Después nosotros hablamos”. (“Pois bem, depois nos conversamos”).

Ao término do expediente, Filomena veio com mais duas mulheres, só não me recordo o nome das outras; uma delas era ex–locutora da BBC de Londres, veio acompanhada da irmã. Eram todas senhoras grã-finas, de aproximadamente 70 anos de idade. Levaram-me numa limusine grande a conhecer diversos lugares em Santiago. Aliás, desde aquele dia, ao final da tarde, eu dispensava a secretária e essas mulheres vinham buscar-me no hotel. Era o início de longas conversas sobre assuntos místicos, transcendentais.

25-Acabou nascendo uma bela amizade entre nós. Elas promoveram um grande encontro esotérico na Aliança Espiritualista Internacional, onde fui convidado a falar. Depois do meu pronunciamento, a locutora da BBC aproximou-se de mim e disse:

“Mire, yo he sido locutora de la BBC de Londres en la última Guerra Mundial, y sé reconocer cuando estoy delante de un líder. Y tú no eres un líder regional; eres un líder mundial.” (“Olha, eu fui locutora da BBC de Londres na última Guerra Mundial, e sei reconhecer quando estou diante de um líder. E tu não és um líder regional; és um líder mundial”).

Numa dessas idas e vindas, elas me levaram para uma reunião na casa de Filomena Delmont. O telhado da casa dela era de vidro, permitindo que a luz do sol clareasse o interior. Não demora o filho dela chegou, encostou a camioneta e ela foi ao encontro dele; nem sequer convidou-o para entrar. Perguntei-lhe:

“¿Por qué no lo mandas entrar?” (“Por que não o mandas entrar?”), ao que ela respondeu:

26-“Él es materialista, no comprende de los asuntos místicos que hablamos y solamente nos molestaría. Nuestro asunto es esotérico, trascedente, el más allá… Es necesario que sepas, Maestro, que el hijo no es la obra más importante del hombre. Los hijos son solamente una circunstancia karmatica.” (“Ele é materialista, não compreende dos assuntos místicos que falamos e somente iria atrapalhar-nos. Nosso assunto é esotérico, transcendente, o mais além… É necessário que saibas, Mestre, que o filho não é a obra mais importante do homem. Os filhos são apenas uma circunstância carmática”).

Aquela mensagem ficou registrada no meu cérebro, depois fiquei refletindo o significado daquelas palavras. Houve um momento em que essas três anciãs começaram a me falar sobre sexo. Elas disseram que eu estava prestes a descobrir que as energias do sexo não deveriam ser expelidas, jogadas fora – e eu não sabia que estava na véspera de deixar de praticar sexo.

27-“Sabes, Maestro, en la juventud, nosotros todos practicamos el sexo, pero es todo ilusión. Tú eres el único joven que conocemos que va a descubrir antes que no tiene que echar esas energías fuera.” (“Sabe, Mestre, na juventude, nós todos praticamos o sexo, mas é tudo ilusão. Tu és o único jovem que conhecemos que vai descobrir antes que não tem que jogar fora essas energias”).

Elas disseram que eu ia descobrir que praticar sexo não era o mais importante, não era significativo e só iria atrapalhar a minha missão. Elas ousaram dizer que até era bom ter estímulo sexual, que o corpo funcionasse conforme a natureza, só não podia jogar fora a energia. A missão dessas mulheres era preparar o meu cérebro para receber a mensagem do SENHOR ao chegar no Instituto Villa Sana, onde fui convalescer logo após o jejum.

28-Na ocasião absorvi aquelas palavras num cético silêncio. Até chegar o jejum fiquei imaginando o que será que o porteiro do hotel pensava vendo aquelas velhas me buscar todo final de tarde… Tudo aquilo me deixou pensativo, aquelas mensagens me marcaram profundamente, ficaram impregnadas em meu espírito, era tudo uma preparação para o jejum que se acercava… E como eu havia recebido instrução para prestar atenção nas mulheres, senti que era necessário andar com elas e ficar atento ao que me diziam. Como eu não tinha jejuado ainda, dava a impressão até que elas estavam querendo me abortar as inquietudes, mas havia algo em meu interior dizendo que elas tinham razão.

Quando parti, ao despedir-me de Filomena Delmont no quintal da casa, disse-lhe:

“!Que bella esa huerta tuya, llena de verde, muy linda! Si pudiera, iría fotografiar para guardar de recuerdo un lugar tan bello.” (“Que bonita essa tua horta, cheia de verde, muito linda! Se eu pudesse iria até fotografar para guardar de recordação um lugar tão belo”).

29-Então ela me olhou e disse:

“Si yo pudiera fotografiaría eses tus ojos. Pero como no puedo, guardo en mi retina la imagen de Cristo que estoy viendo.” (“Se eu pudesse fotografaria esses teus olhos. Mas como não posso, guardo na minha retina a imagem do Cristo que estou vendo”).

O mais incrível em relação a essas mulheres é que elas também eram esoteristas independentes, mas não conheciam o grupo de Bertha Sanchez. Elas não pertenciam a nenhuma agremiação. Essas pessoas que cruzavam o meu caminho viam que existia algo em mim, só eu não podia enxergar, mas pude compreender tudo definitivamente depois do jejum.

Após quase dois meses em Santiago, na véspera de partir com destino a Lima – a secretária Angelina del Rosário Garcia havia inclusive providenciado passaporte para me acompanhar até o Peru – um grupo de esoteristas independentes ouviu-me na Rádio Portales e mandou uma representante falar comigo no hotel. Ela também não quis submeter-se ao ritual de espera – afinal havia outras pessoas aguardando para serem atendidas – alegando perante a secretária que ela e o grupo que representava esperavam pela vinda del Gran Maestro. Face a essa circunstância, autorizei-a entrar. Ela disse:

30-“Yo represento un grupo de 12 personas, en el cual estoy incluida; nosotros hacemos reuniones esotéricas independientes, y nuestra líder, Bertha Segura Sanchez, quiere encontrarte. Dos meses antes de llegares a Santiago, ella nos había dicho que El Gran Maestro estaba para venir, y desde que llegaste, tenemos te acompañado por la radio Portales”.(“Eu represento um grupo de 12 pessoas, no qual estou incluída; nós fazemos reuniões esotéricas independentes, e nossa líder, Berta Segura Sanchez, quer encontrar-te. Dois meses antes de chegares a Santiago ela nos disse que El Gran Maestro estava vindo, e desde que chegaste temos te acompanhado pela Rádio Portales”).

Essas palavras me pegaram de surpresa, pois estava prestes a partir de Santiago. Bertha Segura Sanchez era uma professora de filosofia que muitos anos antes, em comunhão com os demais membros, havia construído uma casa de pedra para receber “el gran Maestro”, segundo as palavras da mulher. Eles me convidaram para um encontro nesta casa de pedra; lá não residia ninguém, foi construída só para estas reuniões entre eles. Consciente de que seria necessário adiar a partida, aceitei o convite.

31-Era um sábado à noite quando Patrício Varella conduziu-me ao endereço indicado, que ficava num vilarejo chamado Casas Viejas, no município de Puente Alto, região metropolitana de Santiago. E lá estavam os 12 esoteristas me aguardando… Alguns deles posicionaram-se em pontos estratégicos do trajeto para dar indicação da chegada e me receberam com reverência. Pra mim aquilo tudo era muito estranho, principalmente porque eu era ateu… No entanto, os acontecimentos foram se desenrolando além da minha vontade e do meu controle. Patrício Varella ficou na sala contígua esperando até a conclusão do encontro. Ao deparar-me com Bertha Sanchez, ela colocou uma chave em minha mão dizendo:

“Maestro, la llave de vuestra casa.” (“Mestre, a chave de vossa casa”).

Imediatamente agradeci e devolvi a chave, numa atitude de aparente repúdio porque achei aquilo muito insólito, todavia era justo naquele local onde tudo iria mudar na minha vida…

32-Eles haviam preparado uma ceia, que estava postada sobre uma mesa comprida, com 13 talheres; 12 para eles, e o 13º para mim. Disseram que aquele momento era muito significativo, pois havia muito tempo que me aguardavam. Eu contemplava tudo com ceticismo; era uma situação muito bizarra para um ateu. Ninguém morava naquela casa, construída em estilo rústico – era usada somente para essas reuniões entre o grupo. Terminando o encontro, agradeci a receptividade e retornei ao hotel – nem sequer imaginava que um dia iria efetivamente usar aquela casa. Eu já havia recebido ordem da imperiosa voz que me comandava que tinha de jejuar, só não sabia como nem quando isso iria se concretizar.

Mais uma vez fiquei meditando sobre tudo o que aconteceu. Era uma situação insólita, confusa. A partida de Santiago estava cada vez mais próxima, todavia eu necessitava falar uma vez mais com Berta Sanchez. Não demorou muito e aquela mulher, representante do grupo de esoteristas, veio novamente à minha presença. Manifestei o anseio em reencontrá-los, todavia num outro lugar que não fosse aquela casa de pedra. Ela estava lá justamente para dizer que eu estava convidado a hospedar-me na casa de Berta Sanchez e podia levar junto comigo a secretária, Angelina del Rosário Garcia.

33-Desde o dia em que fui pela primeira vez à casa de pedra até o dia do jejum, muita coisa aconteceu, “coincidências” surpreendentes… a mão do destino me empurrando naquela direção. Aliás, a minha vida toda foi assim, eu era sempre guiado por uma força superior à minha vontade.

No intervalo dos acontecimentos, pouco depois de chegar a Santiago, senti necessidade de mandar fazer novos conjuntos safári, pois os que eu usava já apresentavam um natural desgaste. Quando saí do Brasil em 1978, deixei todos os ternos e gravatas para trás; fiquei só com três conjuntos safári. Como ainda estava sujeito a sentimentos humanos como orgulho, vaidade, etc. adquiri um tecido finíssimo, o melhor que existia, suficiente para confeccionar mais três conjuntos, e fui até o melhor alfaiate de Santiago tirar as medidas. Ele trabalhava no 8º andar, era um atelier grande, com vistas para a rua; ele costurava quase que exclusivamente para a alta sociedade. Acertei o preço e combinei o dia de buscar a encomenda.

34-Na véspera de terminar a temporada em Santiago, tudo aconteceu muito rápido e ao mesmo tempo. Fui até o alfaiate buscar os conjuntos, mas tive uma enorme decepção: estavam todos curtos, não serviam. Fiquei furioso, indignado… e disse perante o olhar nervoso dos presentes:

“¿Qué se pasó? ¡Nada dio cierto!” (“O que aconteceu? Não deu nada certo!”)

Não podia me conformar que o melhor alfaiate de Santiago havia orquestrado tamanho equívoco. Mas naquele instante, recordei daquelas mulheres umbandistas que, tempos antes, vieram ao meu encontro em Curitiba e deixaram aquela mensagem, em frente à piscina do Hotel João XXIII. Uma delas disse assim:

“Ah, como queríamos te ver vestido numa túnica branca…”, e a outra acrescentou:

“Eu não sei explicar, mas tu não és uma pessoa comum. Tu não tens iniciação em religião alguma, vens do nada, falas nas televisões e de repente te tornas uma pessoa notória. É um mistério!”

35-Ao lembrar essas palavras, fui até a janela e, olhando o povo lá de cima, perguntei ao alfaiate:

“Ya que estos conjuntos no dieron cierto, ¿cómo piensas que el pueblo iría verme si, en lugar de safari, yo vistiese una túnica blanca?” (“Já que esses conjuntos não deram certo, como pensas que o povo iria me ver se, ao invés de safári, eu vestisse uma túnica branca?”)

Surpreso e ao mesmo tempo aliviado diante de tal possibilidade – afinal era uma forma de ressarcir o prejuízo – ele respondeu prontamente:

“Se quedaría muy bien, ¡por supuesto!” (“Ficaria muito bem, é claro!”)

“¿Si yo trajere el tejido ahora, usted puede confeccionar una túnica?”(“Se eu trouxer o tecido agora, você pode confeccionar uma túnica?”)

“Si, si, muy brevemente.” (“Sim, sim, brevemente”).

Mais uma vez trouxe-lhe uma peça de tecido no tamanho indicado, e no dia seguinte a túnica estava pronta. Como estávamos na véspera de partir do Chile, autorizei a secretária Angelina del Rosário Garcia fazer o câmbio do dinheiro chileno por dólar. Fui até o alfaiate buscar a túnica, todavia só iria prova-la no hotel.

36-Desde a juventude sempre cultivei o hábito de fazer amizade com os camareiros, telefonistas, enfim, os funcionários dos hotéis onde me hospedava. Eu estava sozinho e, no exato momento em que provava a túnica em frente ao espelho, alguém bateu na porta e perguntei:

“¿Quién es?” (“Quem é?”)

“Es el camarero.” (“É o camareiro”).

“Puede entrar.” (“Pode entrar”).

Ao adentrar o recinto, ao ver-me vestido de túnica, o camareiro não escondeu o susto; parecia estar vendo uma assombração. Ele disse:

“Voy empezar mis vacaciones; he venido decirte adiós.” (“Vou começar minhas férias, vim me despedir de você”).

Sobre a mesa havia dois envelopes – um com os dólares cambiados pela secretária, outro com pesos chilenos para as últimas despesas em Santiago. Querendo logo livrar-me daquele constrangimento, apontei para um dos envelopes e disse ao camareiro:

“Pega ese sobre allí, es mi gratificación para usares en tus vacaciones.” (“Pega esse envelope aí, eis a minha gratificação pra usares nas tuas férias”).

37-O camareiro pegou o pacote, saiu feliz, agradecido, e enfim despediu-se. Todavia, só depois me dei conta: aquele envelope não continha os pesos chilenos… O camareiro havia levado o pacote dos dólares! Ainda tentei ir atrás dele na tentativa de desfazer o equívoco, todavia era tarde demais… Nessa circunstância, no dia seguinte fechei a conta no Hotel Imperador e aceitei o convite para hospedar-me na casa de Bertha Segura Sanchez. Acompanhado da secretária Angelina Rosário Garcia, parti de táxi com destino a casa dela.

Aquele trajeto ficou bem registrado em minha memória. Numa certa altura, havia um longo trecho repleto de árvores frondosas em ambos os lados, marcando o início do bairro Maipú, onde morava Berta Sanchez, na Calle Chacabuco nº 70. Naquela época, era um local tranquilo e ainda se ouvia o canto dos pássaros. Tão logo cheguei acompanhado da secretária, Berta conduziu-nos cada um para o seu alojamento, que ela havia cuidadosamente preparado. Estavam na casa o marido de Berta, Domingos Sanchez, que era ateu, e o filho dela, cujo nome não me recordo. Pensava em permanecer lá por alguns dias até a partida definitiva em direção ao Peru. Continuei recebendo algumas pessoas com quem mantivera relação em Santiago; dentre essas pessoas estava um ancião chamado Alamiro Tápia, o primeiro homem a quem o SENHOR revelou minha identidade.

38-Na primeira vez que Alamiro foi ao meu encontro, ainda no hotel Imperador, através da Rádio Portales, ele disse insistentemente que havia me reconhecido pela voz. Mesmo sendo bem mais velho, tratava-me com reverência, um profundo respeito que, na minha ótica de ateu, beirava o fanatismo. Eu considerava aquele comportamento um tanto quanto absurdo; pensava no silêncio de minhas reflexões:

“Como pode alguém que não me conhece, dizer que reconheceu-me pela minha voz?” Depois do jejum tudo foi esclarecido.

Alamiro era um homem de posses. Vinha ao meu encontro independente de consultas, sempre disposto a contribuir com o que lhe estivesse ao alcance. Inúmeras vezes ele convidou-me para jantar, e as despesas sempre ficavam por sua conta. Sentia uma energia muito positiva emanada dele. Alamiro providenciou o tecido de linho branco para a confecção da minha primeira túnica. E sem que eu pedisse, ele contribuiu, outrossim, para a continuidade de minha peregrinação pela América Latina.

39-Enquanto estava hospedado na casa de Bertha Segura Sanchez, na Calle Chacabuco, ela contou-me a história de uma mulher chamada Sarita; foi por causa dessa mulher que Bertha e seu pequeno grupo construíram aquela casa de pedra, naquele estilo rústico, onde posteriormente eu iria jejuar e ter a revelação do SENHOR.

Bertha contou que, numa tarde, bateu à porta dela uma anciã pedindo água e iniciou um colóquio; por se tratar de uma pessoa de idade, deu-lhe atenção. Não demora Sarita disse que precisava de um local para jejuar e que aquele lugar ali seria o ideal. Naquele tempo a Calle Chacabuco era um local tranquilo, raramente se ouvia barulho de automóveis. Até então Bertha não tinha qualquer iniciação mística, era cética nos assuntos transcendentais, mas como ela era uma pessoa do bem, convidou a anciã a entrar e ofereceu um quarto da casa para que ela pudesse descansar e jejuar. O marido, Domingos Sanchez, e o filho não viram qualquer problema em deixar Sarita jejuando na casa. Domingos Sanchez era gerente de um posto de gasolina e sempre buscava se adequar à vontade da companheira.

40-No primeiro dia foi uma situação bem diferente, era uma pessoa estranha no ambiente deles, mas Sarita falava muito, com muita firmeza. No dia seguinte, já estavam todos habituados com sua presença, e até por curiosidade renderam-se à determinação dela em jejuar. As pessoas da relação de Bertha Sanchez ficaram sabendo que havia uma anciã jejuando ali. Sarita jejuou por vários dias, e segundo contou o Domingos Sanchez, o quarto onde ela jejuava ficava quente, era um fenômeno inusitado.

41-Entrementes, Sarita iniciou Bertha Sanchez, como dizia, nos mistérios “del más allá”, os assuntos espirituais. Sarita disse que Bertha tinha a missão de preparar 12 pessoas para a vinda do Messias, a quem ela se referia como “el gran Maestro”, e tinha que construir uma casa onde eles pudessem se reunir e esperar a vinda del Maestro. Bertha era professora de filosofia e tinha uma natureza, uma postura de líder. Assim como Bertha se envolveu com a Sarita, ela foi envolvendo pessoas de sua relação, e cada uma dessas pessoas acabou contribuindo para construir aquela casa em Puente Alto. A maioria dos integrantes desse grupo eram pessoas de idade, já aposentados. Dois ou três dentre eles ainda trabalhavam, como era o caso do Carrasquito e da mais jovem, de uns 35 anos, a porta-voz do grupo, que foi me abordar no hotel Imperador. Fizeram uma espécie de mutirão e, assim que concluíram, Sarita foi morar naquela casa até desencarnar. A partir de então, toda semana o grupo ia lá reunir-se com ela. Sarita passou os últimos dias de sua vida dizendo que “el gran Maestro” iria jejuar naquela casa.

42-Fiquei surpreso, pensativo ao ouvir esse relato, uma vez que, ainda antes de sair do Brasil, havia recebido ordem da poderosa voz que me comanda de que eu tinha que jejuar; fiz uma tentativa no extinto hotel João XXIII (atual centro de treinamento do clube Atlético Paranaense, situado no bairro Umbará, em Curitiba), mas não deu certo, ainda não era chegada a hora. Então comuniquei à Berta Sanchez que precisaria sim da chave que ela me oferecera para fazer um jejum naquela casa de pedra… Também contei-lhe sobre o ocorrido com relação aos conjuntos safári e a confecção da túnica. Desde que vesti a túnica no hotel e olhei no espelho, senti um incômodo com a costura acima do ombro; daquela forma não daria certo. Então perguntei à Berta se era possível confeccionar uma túnica sem costura. Berta disse conhecer uma senhora de idade que tinha uma túnica assim. Marcaram um encontro para que essa mulher trouxesse a indumentária. Ela era uma esoterista. Ao deparar-se comigo, entregou a túnica acompanhada de um discurso – dando a entender que para usar aquela vestimenta era preciso estar espiritualmente preparado. É óbvio que não engoli aquilo e ela acabou vendo em mim a cólera de um ancião.

43-Até mesmo Domingos Sanchez, que era ateu, surpreendeu-se e disse:

“!Ahora he visto el Gran Maestro!. ¡Fue el Maestro quien habló!”(“Agora vi o Grande Mestre. Foi o Mestre quem falou!”)

Berta Sanchez examinou minuciosamente como era feita a túnica; devolveu-a à senhora esoterista e agradeceu a boa vontade em trazê-la.

Berta Sanchez prontificou-se a confeccionar a primeira túnica; segundo ela indicou, tinha que ser de linho branco. Alamiro Tápia logo prestou-se a adquirir o tecido; difícil, porém, foi encontrá-lo. Partiram em busca por várias lojas em Santiago. Após inúmeras tentativas infrutíferas, quase desesperançosos, prestes a desistir, descobriram uma pequena loja próxima à casa de Berta Sanchez, e lá finalmente foi localizado o tecido. Berta nunca antes havia costurado. Mas ela sentia algo muito forte em seu interior que a impelia a realizar esse intento. Concluída a feitura, fiquei muito impressionado com o trabalho dela.

Ao entregar a túnica em minhas mãos, com os olhos em lágrimas, ela disse:

“Maestro, yo siento que ya he hecho una túnica como esta…” (“Mestre, sinto que já fiz uma túnica como esta”).

44-Provei-a e desta feita havia ficado impecável. As evidências indicavam que finalmente havia chegado a hora de jejuar. Era o próximo passo da viagem sem volta…

Esse episódio envolvendo a confecção da túnica aconteceu num final de semana. Berta marcou uma reunião entre os membros do grupo esotérico para o final da tarde de domingo, e neste encontro ficou decidido que eu começaria o jejum na segunda-feira. Era o mês de setembro. Nesse encontro tive ocasião de perceber uma mudança em Bertha Sanchez, ela falava diferente de outrora, e os demais integrantes do grupo ficavam estremecidos, temerosos vendo-a portar-se daquele jeito… Depois do jejum compreendi que era o espírito da própria Sarita usando o corpo da Bertha Sanchez, mas como eu estava recém me conscientizando desses mistérios do espírito, era uma situação muito estranha, singular, uma vez que na juventude nunca havia frequentado centro espírita, havia sempre um impedimento… Pra um ateu que não crê em coisas misteriosas, como era o meu caso, tudo soava fanatismo… Mas foi bom, providencial que eu me mantinha cético, porque assim quando o SENHOR me mostrou o significado das ordens que Ele me deu, das visões que tive desde a infância, aí não tinha nenhum resquício de religião, era o ateu despertando para a voz poderosa do PAI que falava no inconsciente. Era o ateu descobrindo DEUS.

45-Carrasquito, integrante do grupo, insistiu que queria estar à minha disposição enquanto jejuasse. Todos imediatamente apoiaram a ideia. Carrasquito era bancário, mas disse que ao terminar o expediente, passaria em sua casa por questões de ordem prática, e seguiria rumo à casa de pedra para fazer-me companhia à noite. Assim procederia no período em que eu estivesse lá. O ambiente na casa de Berta Sanchez estava muito agradável, aconchegante… mas era chegada a hora de trilhar rumo ao desconhecido.

Deixei os conjuntos safári na casa de Berta Sanchez e parti de lá vestido unicamente de túnica – todavia, ainda usava sapatos. O manto, as sandálias, o forro, o boldrié (cinto), a sacola… vieram depois. Berta Sanchez e Angelina del Rosário Garcia acompanharam-me. Na manhã daquela segunda-feira do mês de setembro, pegamos um ônibus em direção a Puente Alto. Era mais uma etapa do despojamento em relação aos bens e valores materiais…

Ao adentrar a casa de pedra, recordei-me da frase que dissera na reunião de intelectuais presididos pelo Dr. Taipo:

“Sinto-me subindo um muro alto, e sei que depois de atravessá-lo, não poderei mais voltar”.

46-Naquele momento, a um passo do jejum, compreendi o sentido daquelas palavras. Estava trilhando um caminho sem volta. Não havia alternativa. Não havia sequer espaço para a dúvida. Tão logo Berta Sanchez mostrou-me os aposentos, ela e Angelina del Rosário despediram-se e retornaram às suas casas; eu permaneci naquele lugar, a princípio estava sozinho, e enfim comecei o jejum. A casa localizava-se numa região afastada, longe das turbulências da cidade grande, de onde era possível avistar as Cordilheiras dos Andes.

Eu estava lá, completamente só, unicamente em companhia de mim mesmo. Olhava para as paredes, janelas, e nada… as horas demoravam a passar. O tempo naquelas circunstâncias adquirira outra dimensão, tornara-se relativamente longo, como se cada segundo fosse um pulsar da eternidade. Nenhuma luz se abriu no céu, nenhuma aparição de anjos, nenhuma visão do além, nenhum efeito cinematográfico, nada de extraordinário; havia somente o silêncio, um profundo e penetrante silêncio, prenunciando o choque de realidade que veio a seguir. Ao anoitecer apareceu o Carrasquito; ele apenas fez ato de presença e permaneceu em outro alojamento.

47-O segundo dia de jejum foi ainda mais extenso… todavia lentamente, mesmo sem saber, estava me aproximando da chocante revelação. Senti no jejum uma experiência singular, como se a voluntária abstinência do manjar físico atraísse o manjar espiritual emanado do PAI. Sendo a primeira vez que eu jejuava, ignorava a necessidade de ingerir água, ou seja, ‘jejuei a seco’. Os líquidos se esvaiam de meu corpo através da urina… Estava fisicamente debilitado, em vias de um processo de inanição. Ao declinar a noite, estava deitado quando de repente aquela voz disse imperativamente:

‘LEVANTA-TE!’

Ao levantar, mareei porque no jejum o sangue demora subir à cabeça. Minhas mãos não me ampararam, bambearam para trás – como que atadas por um madeiro. Meus braços não me sustentaram e caí no chão com todo o peso do corpo sobre o nariz, como podeis ver até hoje a cicatriz resultante da queda. Ainda no chão, com o nariz quebrado, sofrendo dores lancinantes em meio a uma poça de sangue, a voz disse, desta vez mais forte e poderosa do que nunca:

48-‘As dores são necessárias, o sangue é necessário para que, quando te insultarem e reprovarem, te lembres que é o mesmo sangue que derramaste na cruz. Eu sou o DEUS de Abraão, de Isaac e de Jacob, Eu sou teu SENHOR e DEUS, e tu és o mesmo Cristo que crucificaram. Em teu nome está o mistério de tua identidade. Mas não penses que ser Cristo é um motivo de júbilo… Caminharás sobre a Terra como um peregrino errante. Serás prisioneiro, expulso, humilhado, odiado. Pagarás para dormir e não te deixarão dormir, tua túnica estará suja e não terás quem a lave, muitos rirão e debocharão de ti para que conheças bem os corações de teus filhos, que são o teu povo. É a reprovação que te espera. Mas Eu serei contigo.’ (“… Mas primeiro é necessário que ele sofra muito e seja rejeitado por esta geração. Assim como foi nos tempos de Noé, assim será também quando vier o Filho do Homem…” – Lucas c.17 v.25 a 35).

49-Então Ele revelou o mistério do meu nome, que é INRI, o nome que paguei com meu sangue na cruz há dois mil anos. A segunda letra estava em sentido contrário. Foi um estratagema divino que manteve minha identidade oculta até o momento da revelação (vide O Mistério do Nome INRI). Em verdade, em verdade vos digo: eu que vos falo fui a primeira ameba, o primeiro réptil que, rastejando, saiu da água buscando ar para sobreviver, o primeiro macaco que caminhou ereto sem rabo e o Primogênito dotado de consciência que buscou a compreensão de si e do mundo que o cerca. Sou sim o Primogênito de DEUS, que reencarnei Noé, Abraão, Moisés, David, etc., depois Jesus e agora INRI. A partir desse momento tudo mudou pra mim, aos poucos o SENHOR foi mostrando meu passado e pude compreender todas as experiências a que Ele me submetera, os vislumbres do além e momentos de transcendência que vivi antes do jejum, mas, obediente à imperiosa ordem dEle, não podia contar a ninguém… Tudo foi ficando claro e passei a caminhar sobre a Terra consciente de minha real condição.

Carrasquito ouviu o barulho e logo apareceu, juntou-me do chão e ajudou a recompor-me da queda. Quase sem forças, disse-lhe:

“¿Y ahora?” (“E agora?”)

Reclinando-me sobre o leito, Carrasquito respondeu:

“Quédate acá, pues ahora voy hacer una sopa de legumbres para ti, Maestro.” (“Fica aquí, pois agora vou fazer uma sopa de legumes para ti, Mestre”).

50-Permaneci ali, deitado, e então foi-me lentamente sendo desvendado o passado, desde a mais remota ancestralidade; era uma visão nítida, como se estivesse contemplando a tela de um filme. Questionei o SENHOR:

“Mas como posso eu ser Cristo? Eu que sentei à mesa de jogo, que passei pelas prisões e estive nos cabarés com as prostitutas?”

E então Ele me respondeu:

“Tu não fizeste essas coisas por tua conta. Fui Eu que te levei a conhecer as misérias e os pecados do mundo para te dar poder, e assim poderás cumprir a difícil missão que Te confiei neste século de corações duros”.

Naquelas condições, precisava com urgência de um curativo. Na mesma noite fomos embora da casa de pedra. Carrasquito levou-me primeiro à casa de Patrício Varella, e em seguida partimos em direção à casa de Berta Sanchez. Ao chegar, no momento em que passava pelo solar da porta social, aquela força superior moveu meus lábios além da minha vontade e disse pela minha boca:

“Él tomará de lo mío. Todo que mi PADRE tiene mío es; por esto yo he dicho, él tomará de lo mío…” (“Ele receberá do que é meu… Tudo que o PAI tem é meu, por isso eu vos disse que ele tomará do que é meu…” – João c.16 v.7 a 16).

51-Impactado pela surpresa, compreendi que essas palavras referiam-se às minhas vestes, pois ainda não estavam completas. Não podia continuar usando sapato, tinha que usar sandálias a fim de experimentar o despojamento da vaidade e do ego… Era necessário regressar à simplicidade. Momentos depois, reclamei estar sentindo frio. Berta Sanchez foi até o quarto e trouxe de lá um manto rústico tecido à mão, na cor natural da lã, e disse:

“Maestro, vuestra frazada.” (“Mestre, o vosso manto”).

Ao entregar-me a peça, ela contou que, quinze anos antes, em companhia do marido Domingos Sanchez, havia feito uma viagem ao interior do Chile. Numa pequena vila, deparou-se com aquele manto, tecido por camponeses, e sentiu necessidade de comprá-lo. Deixou-o guardado por todo esse tempo e agora sabia o significado de tê-lo preservado intacto.

Alamiro Tápia também foi informado do ocorrido, e em menos de uma hora chegou à casa de Berta. Por sugestão de Patrício Varella, eles tomaram a decisão de levar-me ao Instituto Villa Sana – era o local mais apropriado para convalescer naquelas condições. O Instituto Villa Sana – hoje chamado Villas de Vida Natural – é um centro de recuperação naturalista situado em Las Condes, na região leste de Santiago. Lá chegando, Alamiro Tápia pagou adiantado a hospedagem por três dias.

52-Naquela circunstância eu ainda me apresentava como Iuri, pois ao mesmo tempo em que tive a revelação do SENHOR, recebi a ordem para não declinar minha identidade. E assim continuei carregando em meu interior o mistério do meu nome, apresentando-me ao povo como profeta, à exceção de algumas pessoas que, por revelação divina, decifraram o enigma e viram quem sou. Na entrada do Instituto Villa Sana havia um painel onde se registravam os nomes de todos os hóspedes. No alojamento número 7, constava a presença de Iuri de Nostradamus.

No dia seguinte, estava repousando quando aconteceu-me algo que considero ainda mais chocante do que o próprio jejum. Deitado sobre o leito, de repente o SENHOR mostrou-me numa visão o corpo de uma mulher, um corpo belo, completamente despido do umbigo para baixo, e então aquela voz poderosa – que eu já sabia ser meu PAI e SENHOR – disse:

“Nunca mais tu usarás as tuas filhas como os homens o fazem”, dando-me a consciência de que nunca mais iria praticar sexo a partir de então.

53-Eu tinha recém completado 31 anos. Mas se o SENHOR tivesse apenas dito essas palavras e não me desse poder sobre a carne, eu estaria sujeito a cair em tentação. Foi aí que algo fantástico aconteceu na sequência… Ainda pasmo ante o impacto da mensagem, senti um calor transcendental subir através de minha coluna vertebral em direção ao cérebro, como que conduzido pelas inefáveis mãos do Invisível, propiciando-me um estado de êxtase divino que nunca antes experimentara na alcova com mulher alguma. Era o ápice da descoberta do Amor pelo Eterno PAI, e com isso foi-me dado o poder sobre a carne. O SENHOR removeu o véu da ilusão que me mantinha alheio à minha real condição, descortinando o sublime mistério do Filho do Homem. A partir de então, passei a olhar homens e mulheres como meus filhos e filhas que são, com amoroso olhar paternal.

54-Algumas horas mais tarde, Alamiro Tápia voltou à minha presença, entrou pela porta do quarto número 7 e disse ao contemplar-me:

“Maestro, ahora he entendido el misterio de tu nombre. Yo he mirado el panel y he visto que tu nombre tiene un secreto, un misterio muy grande.” (“Mestre, agora entendi o mistério do teu nome. Olhei o painel e vi que o teu nome tem um segredo, um mistério muito grande”).

Embora ainda não houvesse revelado a ninguém minha identidade, confirmei que havia sim um mistério em meu nome. Aí comecei a perceber que ele não era um fanático. Era uma pessoa que via coisas que os outros não viam. Alamiro continuou:

“Tu nombre no es Iuri, pero Inri; la segunda letra está en el sentido contrario.” (“O teu nome não é Iuri, mas Inri; a segunda letra está em sentido contrário”).

Constatei naquele instante que Alamiro estava inspirado; só DEUS podia ter-lhe feito diretamente tal revelação. Aí entendi também por que ele insistia em dizer que havia me reconhecido pela voz. E ele continuou:

“Pero no solamente el nombre. Tu apellido también.” (“Mas não apenas no nome. Teu sobrenome também”).

“¿Cómo así?” (“Como assim?”), indaguei-lhe, ao que ele respondeu:

“Nostradamus significa Notre-Dame, o Nuestra Señora. Eres el hijo que ha venido de la que llamamos Nuestra Señora. Tu nombre revela todo tu passado.” (“Nostradamus significa Notre-Dame, ou Nossa Senhora. És o filho que veio da que chamamos Nossa Senhora. Teu nome revela todo o teu passado”).

55-Não muito depois disso, veio ao meu encontro um casal, uma massagista e um cabeleireiro. Eles chegaram e perguntaram:

“¿Quién es usted?” (“Quem é você?”)

E eu lhes respondi:

“Mi nombre antiguo es Jesús, pero en el reino de mi PADRE me llaman Cristo.” (“Meu nome antigo é Jesus, mas no reino de meu PAI me chamam Cristo”).

Os dois ficaram atônitos, abismados diante de tal afirmação, e depois disso não se acercaram mais. Foi quando o SENHOR disse:

“Nunca mais decline para ninguém tua identidade, ao contrário te tomarão por louco. Aguarde até que em algum país, em algum lugar, como que por equívoco, escrevam o teu nome corretamente. Daí em diante tu poderás dizer quem tu és”.

Isso veio a acontecer quando estive posteriormente no México em 1980 e o jornal Ovaciones escreveu na primeira página:

“INRI, el Cristo, Hijo de DIÓS, habla al pueblo y cura a los enfermos en el kiosco de la Alameda.” (“INRI, o Cristo, Filho de DEUS, fala ao povo e cura os enfermos no quiosque da Alameda”).

56-Daí em diante, conforme a ordem do SENHOR, esse era o sinal de que podia e devia dizer publicamente que sou o mesmo CRISTO que crucificaram.

Patrício Varella compareceu ao Instituto para gravar nova entrevista, e na sequência publicou-a na Rádio Portales. Em virtude dessa entrevista, muitas pessoas vieram à minha presença, dentre elas uma mulher de idade, a Vespita; recordo que era uma anciã mui esbelta, enérgica. Ela trouxe na minha presença o livro ‘Yug, Yoga, Yoguismo’, de Serve Reynaud de la Ferrière, e disse:

“Mire acá, Maestro. Él pensaba que él era usted, solo porque tenía las cuatro letras en su nombre. Pero eres tú. La segunda letra de tu nombre está puesta al contrario.” (“Olhe aquí, Mestre. Ele pensava que ele era você, só porque tinha as quatro letras em seu nome. Mas és tu. A segunda letra do teu nome está colocada ao contrario”).

57-Aí ela me mostrou no livro onde está a citação de Apocalipse c.3 v.12, mencionando que INRI é o nome que o Filho do Homem teria em seu retorno, e os diversos significados. Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum (Jesus Nazareno Rei dos Judeus); Igne Natura Renovatur Integra (pelo fogo se renova toda a natureza); Iammim Nour Rouahh Iabescheh (Agua, fogo, ar e terra). Ela tinha a missão de me dar conhecimento dessas informações.

Cheguei a perguntar o que ela fazia para manter-se tão elegante naquela idade, ao que ela respondeu, fazendo um gesto como se andasse de bicicleta:

“Este es mi vehículo, no puede ser diferente, porque es el vehículo con el que ando en la Tierra.” (“Este é o meu veículo, não pode ser diferente, porque é o veículo com que ando na Terra”).

E por fim, ela disse:

“! Ah, como quisiera verte listo! ¡Pero aún no estás listo!” (“Ah, como quería te ver pronto! Porém ainda não estás pronto”).

Ela enxergou que eu teria de passar por um longo processo antes de estar pronto, completo para cumprir minha missão.

58-Lembro que veio também um médico acompanhado de sua esposa, que dizia assim:

“¿Por qué Brasil? ¿Por qué Brasil?” e a companheira dele respondia: “¿Por qué Chile? ¿Por qué Chile?”

Ela não conversou diretamente comigo, mas a escutei falando dessa forma, porque tinha me reconhecido.

Um garimpeiro que me ouviu na rádio Portales trouxe uma pedra com a minha imagem esculpida, ele disse que exatamente como foi extraída da pedreira ele a trouxe ali na minha presença, e lá estava o meu rosto… Foi o sinal que o SENHOR usou para mostrar o significado daquela passagem da Bíblia que diz: “Se estes calarem, as próprias pedras clamarão” (Lucas c.19 v.40).

Veio também ao meu encontro uma viúva, chamada Maria, que tinha como ofício fabricação de calçados. Eu já havia recebido a instrução do PAI de que deveria despojar-me dos sapatos e passar a usar sandálias. Quando soube que essa mulher tinha esse ofício, encomendei-lhe um par de sandálias. Ela confeccionou-as, e no momento de calçá-las nos meus pés, fez uma pausa para narrar um breve relato de sua vida. Contou-me que, quando menina, foi levada pela mãe a uma vidente. Esta lhe dissera que, quando crescesse, ela iria casar, ter filhos… mas que não seria essa sua mais importante missão. E continuou:

59-“Yo he casado, tenido hijos, soy viuda… pero ahora siento que estoy cumpliendo mi misión más importante, Maestro. Era así que Jesús caminaba, de sandálias…” (“Eu casei, tive filhos, sou viúva… mas agora sinto que estou cumprindo minha missão mais importante, Mestre. Era assim que Jesus caminhava, de sandálias…”).

E naquele momento ungiu os meus pés com suas lágrimas, dando-me forças para a reprovação que me esperava. Muitas vezes, quando era difícil chegar aos aeroportos indumentado de túnica e sandálias, pois muitos me olhavam com raiva e até com desdém, a lembrança das lágrimas dessa mulher em meus pés fortalecia-me para continuar adiante.

Foi assim que parti de Santiago: de túnica, manto da cor natural da lã, sandálias e uma maleta onde guardava utensílios pessoais. Alamiro Tápia patrocinou para dar continuidade à minha peregrinação pela América Latina.

60-Nos três anos que seguiram o jejum e a revelação do SENHOR até chegar à revolução perpetrada em 28/02/1982, vivi o período mais tumultuado, mais imprevisível e certamente o mais cruciante da minha vida. A transcendência é como um cano ligando o plano da terra ao plano superior, e quando tu penetras por essa via e passas para o outro lado, tu vês como as coisas na Terra são pequenas, os rumores, as discussões, as disputas… tudo torna-se irrisório quando consegues vislumbrar a realidade do além, “el más allá”, como diziam alguns chilenos que cruzaram o meu caminho”.